Benita Prieto fala sobre a profissão Contador de Histórias: “Optei por ser feliz, já que só temos uma única existência.”

Engenheira, atriz, especialista em literatura infantil e reconhecida nacionalmente por contar histórias. Benita Prieto fala um pouco da profissão e a importância da oralidade.

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(Foto – Emília Silverstein/ Projeto Lupa )

Uma mulher de forte presença, de uma voz doce, com muitas ideias e cheia de energia. Benita não é política, mas faz política. Sem papas na língua ela defende com garra o que pensa , seja nas redes sociais, seja na vida. Defensora das histórias narradas e da cultura brasileira. O Ih, Contei! Teve o prazer de conhecer  Benita Prieto e sem mais delongas iniciamos assim a entrevista para nosso blog:

Benita, sempre ouvi dizer que nossa primeira história é a história do nosso nome, então pra começar essa história queria saber qual a origem do seu nome, Benita Prieto?

-Dizem que o nome é o primeiro presente que nos dão. Acho isso verdadeiro mesmo quando são nomes estranhos, pois os pais estão oferecendo aquilo que acreditam ser a forma mais carinhosa de chamar sua criança. No meu caso o presente vem de terras distantes, pois sou filha de espanhóis da Galícia. Esse nome foi bastante popular por lá até a década de 60 do século passado. Eu fui batizada com ele para homenagear meus avós. Tenho um bocado de Benitas e Benitos na minha ascendência e que já se foram.  Seguem vivos o tio Benito e a prima Benita. Quanto ao Prieto é sobrenome do meu pai e achei que combinava perfeitamente ao decidir pelo meu nome artístico.  Acho lindo meu nome. Ele me religa a minha ancestralidade familiar.

Benita, quando você decidiu ser contadora de história e escritora?

-Dizem que conto histórias desde pequena, mas não me lembro. Sei que sempre joguei com personagens, pois aos cinco anos já fazia teatro motivada pelo Sr. Francisco que era carnavalesco, creio que da Escola de Samba Salgueiro. Portanto, faço teatro desde nova. Quando o Fernando Collor de Mello assumiu a presidência desmantelou todas as estruturas ligadas a arte. Foi nesse momento que surgiu na minha vida a FNLIJ – Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para trabalhar no projeto Meu Livro, Meu Companheiro que montava bibliotecas com atividades de leitura dentro de hospitais da rede pública do Rio de Janeiro. Lá conheci e fui convidada a participar do grupo Morandubetá de Contadores de Histórias, composto por Celso Sisto, Lúcia Fidalgo e Eliana Yunes, e comecei minha trajetória profissional nessa área.
Quanto a escrever foi uma encomenda de uma editora do Sul. Quase uma imposição. Ainda não tomei muito gosto pela escrita. Gosto da oralidade. E com tanta literatura linda, penso que só vale a pena publicar algo se for realmente importante, necessário e diferente.
Optei pela palavra falada. Acho que contar uma história é a melhor e mais potente forma de comunicação da humanidade.

Trabalhar com arte foi uma decisão difícil pra você? Sua família e amigos apoiaram logo de início?

-Muito difícil. Ninguém me disse: você está no caminho certo. Não tive apoio nenhum. Meu pai dizia para todos que eu era engenheira. E só passou a reconhecer meu trabalho artístico quando comecei a aparecer nos meios de comunicação de massa. Tenho convicção que não faziam isso por mal. Tinham preocupação do quê poderia acontecer comigo. Era zelo e carinho.

Muitas pessoas têm muito medo de trabalhar com que realmente amam fazer. Muitos acreditam que seguir uma carreira na área das artes não será bom para eles, pois eles não irão conseguir se sustentar. O que você diria para essas pessoas?

-Posso relatar minha história. Sou engenheira de formação e atriz da vida toda. Quando tinha vinte e poucos anos refleti que se continuasse na engenharia chegaria aos quarenta anos frustrada, doente e amarga. Não queria ter uma vida triste, embora com dinheiro. Optei por ser feliz, já que só temos uma única existência. A arte me faz feliz, me trouxe amigos preciosos, enche minha cabeça de bons pensamentos, preenche o meu ser de poesia e contentamento. E para conseguir sobreviver me faz malabarista, com momentos de altos e baixos, com muitas atividades paralelas para pagar minhas contas. De qualquer modo se pensarmos na história de artistas brasileiros, quantos foram e são também diplomatas, funcionários, públicos, comerciantes, empresários, empregados domésticos, bancários, professores, médicos, dentistas e até engenheiros. Cada história é única.

Você tem uma formação em Engenharia Eletrônica, para muitos isso pode parecer um pouco distante da sua vida profissional de escritora e contadora de histórias, como você concilia sua profissão com sua formação?

-Para o século 21 é maravilhoso ter passado por várias formações. Eu também sou técnica de laboratório de analises clinicas, pois pensei em ser médica. Sou especialista em Literatura Infantil e Juvenil e em Leitura: teoria e praticas. E atualmente pesquiso com afinco a leitura e a literatura digital. Cada um desses estudos contribui para melhorar um pedaço do meu ser e abrir canais para novas descobertas, construindo pontes internas. E todos os saberes contribuem para melhorar meu acervo pessoal que irá desaguar nas histórias que escolho contar. Sou movida pela curiosidade e tenho avidez pelo conhecimento.

Em algum momento da vida você já pensou em desistir da sua carreira artística por algum motivo?

-Muitas vezes. Trabalhar com Educação e Cultura é muito difícil. Há uma visão romântica de quem está fora e não conhece os meandros e as penas de um artista. O nosso pagamento afetivo é o aplauso e o reconhecimento, mas isso não paga nossas contas. Matamos leões todos os dias travestidos de burocracias insanas e de muitos gestores que desconhecem nossos ofícios por falta de formação. Daí eu penso no prazer que me dá esse trabalho e sigo em frente.

Qual a sua opinião sobre as atuais políticas públicas para a literatura, o que falta mudar para melhorar?

-Como diz o ditado para ficar regular ainda tem que melhorar muito. Infelizmente o país tem poucos técnicos nos cargos que poderiam construir políticas públicas efetivas, pois são ocupados, na maioria das vezes, não por competência e sim por afinidades políticas e interesses escusos.  A cultura é sempre muito elogiada e ao mesmo tempo massacrada, pois faz barulho, tem acesso às redes sociais, aos periódicos. No entanto esse “trunfo” raramente reverte em uma discussão com quem efetivamente tem o “poder” temporário de decidir. Falta dialogo, dar as mãos, construir juntos. Como artistas nós também pecamos. Necessitamos um envolvimento maior e trabalhar para o coletivo de nossa área de atuação.

OFICINA

O Contador de Histórias  Criando Brinquedos Que Contam Histórias