Um Intercambio de Contadores de Histórias!

Iniciamos o ano de 2019 com nosso primeiro projeto de intercambio entre Cias.

A Ih, Contei recebeu a Cia Nós de Teatro para uma imersão na arte de contar histórias e durante 7 dias, 24 horas por dia, falamos, pensando e sonhando ‘contação de histórias’. Vou aqui relatar um pouco de como foi nosso processo e o resultado deste trabalho. Antes devo dizer que este projeto “DE RECREIO EM RECREIO” foi patrocinado pela  – SECULT – Secretaria de Estado da Cultura do Espirito Santo – e idealizado pela Cia Nós de Teatro de Cachoeiro de Itapemirim/ES em parceria com cia Ih, Contei! do Rio de Janeiro/RJ

1º dia – Chegada da Cia Nós no ateliê da Ih, Contei no Rio.
A Cia Nós chega ao Rio de Janeiro pela primeira vez. Nesta viagem vieram o ator Marco Antônio e Brenda Perim. Assim que pisaram em nosso casa ( Onde fica também nosso ateliê.  Então, caro leitor, não fique confuso quando eu chamar de casa ou ateliê, é o mesmo local!) comemos uma pizza e começamos a falar sobre os trabalhos. Mostramos aos meninos um pouco de nossas produções plasticas, nossos bonecos e objetos que usamos para contar histórias. Falamos um pouco do processo de produção deste material e como modelamos e montamos cada boneco para contar histórias. Falamos do uso dos tecidos, papetagem, argila e muitos outros materiais que nos ajudam a criar e dar vida a todos os bonecos da cia. Falamos sobre as regras da casa, é importante também, manter o espaço limpo para que as energias possam fluir e para que os próximos passos sejam mais organizados, pois a bagunça é certa que vai acontecer!  Depois de muito conversar é hora de descansar e acordar no dia seguinte as 9h da manhã para começarmos o processo.

2º dia  – Dia de planejar com detalhes o que iremos construir

Ainda hoje conheço poucos grupos de artistas que planejam com cuidado o seus processos. Quando digo planejar não é por na cabeça e iniciar um processo sem um caminho preciso. Planejar exige que a gente tenha papel e caneta a mão, e um linha a ser seguida. E assim foi conosco. Tomamos nosso café e conversamos mais um pouco sobre nossos desejos sobre o trabalho. Depois desta conversa fomos para o chão, pegamos lápis, caneta, papel e muitos post-it para iniciar nosso processo de planejamento. Tudo começa com o circulo dos sonhos, onde fazemos um circulo no papel e colocamos todos os nosso sonhos e desejos para o projeto, neste caso o nosso sonho principal foi o desenvolvimento de uma apresentação de contação de histórias que teve o nome de ” O Conto Que Te Encanta Eu Te Conto”, com este desejo vieram também o desejo de criar bonecos, difundir o folclore brasileiro, ter muitas cores, um figurino legal, ter brincadeiras e muita participação do público. Muitos outros sonhos foram emergindo no circulo. Ao final de tantos sonhos é hora de por tudo isso num planejamento estratégico com uma linha e tempo,  onde cada sonho vira objeto para ser concretizado. Todo este processo de planejamento nosso surgiu a partir da metodologia Dragon Dreaming – caso você ainda não conheça essa metodologia, vale a pena conhecer.


3º dia – Uma folguinha para curtir o Rio

Os meninos da Cia Nós, tiveram uma folga e foram conhecer a praia Copacabana e o Pão de Açucar. É importante respirar um pouco.


4º dia – Ler e criar histórias 

Brenda e Marco, da Cia Nós, separaram diversos contos do folclore brasileiro. Depois de ler e reler muitas vezes optamos por ficar com 3 contos, foram eles: Iara;  A lenda da Vitória Régia e O Canto do Japim. Todas as histórias são contos da cultura indígena o que nos levou a fazer uma pesquisa sobre a vivência e cultura dos índios e que foi uma experiência incrível. Agora que estávamos com os textos em mãos, era hora de largar eles! O mais importante para nossa construção narrativa é a estrutura do texto e não o texto isso, digo isso quando tratando de contos populares, no caso de contos autorais é importante manter cada virgula escrita pelo autor. Tínhamos na mão contos populares  que poderiam ser modificados, ampliados, repensados mas a estrutura deveria ser mantida a mesma. E assim foi. Os contos ganharam nossas formas, nova vestimenta, a estrutura se manteve igual – vou explicar isso melhor pra você, caro leitor. Imagino que você conheça o conto da chapuzinho vermelho, todos nós sabemos a estrutura deste contos ” a menina vai a casa da vó com quitutes, encontra um lobo no meio da floresta, o lobo descobre para onde ela está indo, o lobo vai para a casa da vó, come a avó e tenta comer a chapeuzinho” em todas as vezes que ouvimos essa história a estrutura é sempre a mesma, mas a forma como ela é contata muda! Pode-se mudar o final e florear mais o texto na oralidade, mas a estrutura sempre será mantida como regra. Quando a estrutura do conto é quebrada, ai ele deixa de ser o conto da chapeuzinho.

5º dia – Hora de criar bonecos e adereços de cena

As histórias estão prontas e agora é hora de construir bonecos. O processo é longo e foi das 09 às 02h da manhã.
Durante o processo construímos 3 bonecos importantes para as histórias – são eles:
o pássaro JAPIM –  O pássaro teve seu corpo feito com um caroço de manga, as asas foram feitas com fios de piaçava e na base um pregador. O corpo do pássaro foi todo coberto por penas coloridas e as assas ficaram flexíveis, prendemos barbante preto nas assas para puxar e fazer o pássaro bate-las, os olhos do pássaro foram feitos com miçangas do tipo olho grego.
A sereia IARA –  Esta boneca teve a base do corpo feito em espuma modelada a tesoura, a cabeça foi feita modelada em papel machê, todo o corpo e a cabeça foram cobertos com tecido tingido em café. A cauda foi feita com um longo tecido voal azul, os cabelos foram todos feitos de lã especial vermelha e ela recebeu muitos enfeites como cordões de pedras, pedrinhas brilhantes e conchas.
O Jaraguari – O personagem Jaraguari foi feito em um grande tecido em que o contador de história possa vestir. foi costurado como se fosse uma grande calça e a cabeça foi colada no topo do tecido, um buraco foi aberto para que possa entrar a mão do contador de histórias e esta mão vira a mão do boneco. A cabeça do boneco foi confeccionada em papel machê e colagens com papel para dar cor. Os olhos foram fitos com bijuteria e palha, o cabelo foi feito com penas tingida de cor preta.
Adereços de cena – Para compor a cena das histórias optamos por uma esteira de palha e um grande cesto de onde todos os personagens iriam ser tirados. Também optamos por comprar um instrumento chamado tambor trovão, que faz um incrível barulho de raios e trovões.

6º  dia – Definir figurino e ensaiar, ensaiar, ensaiar muito.

No sexto dia foi o dia de ensaiar com os bonecos e passar muitas vezes os contos. Este dia também foi o dia de definir o figurino que para a apresentação. Nos nossos desejos o figurino deveria ter muitas cores e por isso Brenda ficou um longo vestido vermelho, com rendas no busto e uma grande estampa de borboleta e o Marco ficou com uma calça que de origem chilena e uma camisa laranja que lembra uma bata. Ambos estavam com trajes que lembravam os nossos povos ribeirinhos. O dia foi intenso com muito ensaio e preparação para o dia seguinte onde seria a apresentação. Neste dia também foi definido o local onde iria ocorrer a sessão de histórias. Optamos por apresentar em uma ONG na favela do Turano – este espaço se chama Fazendo Arte – um espaço coordenador por Evandro  Machado e sua esposa Vanessa e onde ocorrem diversas ações socais especialmente para crianças e jovens da favela.


7º dia – Hora de apresentar a contação – ” O Conto Que Te Encanta Eu Te Conto – Lendas do Brasil”

Bom, o trabalho foi todo feito com muito cuidado e carinho e o nosso público merecia a melhor apresentação que pudéssemos fazer. A instituição nos recebeu com muito e carinho e na plateia havia mais de 30 crianças aguardando a contação de histórias. Todos estavam tensos, mesmo depois de cascudos uma nova sessão de histórias sempre nos deixa com borboletas no estomago. Quando começou foi pura diversão, as crianças riam, brincaram, contaram junto com os contadores de histórias e os bonecos foi um sucesso total. Todos amaram. Ao final da contação de histórias as crianças se aproximaram mais para ver os bonecos, tocar, olhar os detalhes e rir com eles.
Os meninos da cia Nós estavam prontos, em 7 dias eles viram emergir o contador de histórias que eles tinham dentro de si. Fizerem um trabalho lindo e delicado!
O processo ainda não acabou, agora a cia Nó de Teatro volta a Cachoneiro de Itapemirim/ES e vão rodar mais algumas dezenas de escolas públicas com a apresentação! E vão continuar a encantar as crianças, mas agora lá em Espirito Santo!

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A IH, CONTEI é uma cia que nasce dentro da favela em 2014 e algum tempo depois começa a rodar por diversos estados do Brasil! Produzimos trabalhos que participaram de grandes eventos. Mas ainda hoje adoramos quando podemos construir trabalhos que possam rodar as áreas mais periféricas de nossas cidades! O resultado deste intercambio foi um incrível trabalho feito com muito carinho para crianças de todas as idades.

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Este foi um projeto patrocinado pela SECULT – Secretaria de Cultura do Estado do Espirito Santo
Realização: Cia Nós de Teatro, Cia Ih Contei
Direção da Contação: Leandro Pedro e Elton Pinheiro
Atores/Contadore de Histórias: Brenda Perim e Marco Antônio

Olá, me chamo Leandro Pedro. Sou ator, contador de histórias, coordeno as atividade da Ih, Contei! E  sou apaixonado por educação infantil e por isso em 2014 fundei a Ih, Contei! uma cia que desenvolve um montão de projetos especialmente para infância nas áreas de arte, educação e difusão a literatura.